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(ADORMECER) A AÇÃO PRÉVIA PARA SE PERMITIR SONHAR (/ADORMECER)

 

Ato 0: PRÓLOGO — O MUNDO DOS SONHOS

 

Havia uma sociedade onde todos estavam impetuosamente buscando realizar os próprios sonhos. Durante o ritual de maioridade aos vinte e cinco anos, o indivíduo recebia a permissão para perseguir os próprios sonhos após declarar suas intenções no Registro Público, que o considerava agora alguém capaz de estabelecer e assumir a responsabilidade perante seus atos. Haviam também precedentes legais que permitiam que indivíduos com menos de vinte e cinco anos recebessem a permissão mediante contexto justificado e verificado por pares pertinentes à situação específica. Uma vez aprovado por um conselho administrativo regional, conforme a lei estabelecida no território anexado ao reino da união, o jovem era reconhecido como apto. A cerimônia de maioridade era transmitida em todos os cantos do reino, e familiares compareciam vestidos de cores vibrantes, testemunhando o momento em que mais um membro da sociedade assumia seu destino nas próprias mãos.

 

O destino daqueles que não declarassem seus sonhos até os vinte e cinco anos era conhecido por todos: tornavam-se 'excluídos'. Esta condição não significava apenas marginalização social, mas uma espécie de morte civil onde o indivíduo perdia direitos fundamentais de participação na vida pública, acesso a certos recursos, e acima de tudo, o respeito de seus pares. Os excluídos existiam à margem da sociedade, realizando trabalhos que ninguém mais desejava, vivendo em áreas designadas onde a infraestrutura era precária e as oportunidades basicamente inexistentes. Para uma sociedade que valorizava acima de tudo a realização pessoal através do sonho declarado, não havia destino pior do que ser alguém sem sonhos.

 

Ato I: UM PEQUENO PAR DE OLHOS BEM ABERTOS

 

Nessa sociedade havia também um indivíduo que estava aterrorizado com a possibilidade de não ter um sonho, estando ainda aos cinco anos de idade indeciso e sem saber como se preparar para o futuro. Ele não queria ser um dos excluídos, mas tampouco sabia o que desejava fazer nem como descobrir qual era seu sonho ou por que as pessoas precisavam de um. Afinal, havia muito a organizar na própria estrutura da união antes de se preocuparem com isso. Claro, apesar dessa conclusão, essa clareza veio somente aos doze anos de idade — antes disso, era somente a intuição que o atormentava. A partir dali o terror só aumentava, já que a complexidade do problema estrutural era muito superior ao estimado inicialmente em sua ingenuidade coerente com sua faixa etária.

 

Descobriu que o sistema permitia a (co)existência de 'contravenções legais' por circularidade endossada, mantida deliberadamente assim e determinada por pares enviesados pertencentes a algum grupo segregado do governo, fosse esse do ramo legalizado ou parte do livre mercado. Haviam facções leais à ética governamental que se consideravam conservadores da ordem, estando divididos em dois grupos majoritários polarizados sobre os pilares extremos que sustentam a organização interna. De um lado, os que acreditam que o ser humano é inerentemente bom e propõem uma sociedade baseada na soberania individual e livre arbítrio como direito. Do outro, os que creem que o ser humano é mau e precisa da supervisão de algum superior — estes divididos em militaristas, sacerdotais, supremacistas e imperialistas.

 

Essas organizações também possuíam suas particularidades e existiam sobre uma malha 'invisível' mas que realizava a manutenção das engrenagens da sociedade. Eram chamadas de intermediários, cuja estrutura piramidal era posicionada de forma oposta aos demais grupos: o vértice localizado no extremo inferior era o ponto negativo que recebia a maior pressão, possuindo as maiores taxas de excluídos, conhecido como o grupo das minorias. Essa compreensão levou mais tempo do que as outras, e ocorreu logo antes de completar os dezesseis anos — idade mínima onde sua família tinha o costume de emancipação individual por uma tradição interna e uma longa linhagem de membros cuidadosamente moldados desde a infância para cumprir certas exigências mínimas durante a preparação do ritual.

 

O ritual era realizado antes do prazo máximo de vinte e cinco anos, antes de se tornar oficialmente um excluído se não declarasse seus sonhos e fosse emancipado em busca de realizá-lo. O que não ajudou em nada e impossibilitou a escolha de qualquer caminho: o momento onde a tecnologia digital estava transformando a sociedade mal havia começado, e qualquer estratégia para cumprir antes da aposentadoria estava muito longe de poder ser calculada com os vetores equacionais de longo prazo que se tornavam exponencialmente maiores com a inserção de cada nova tecnologia. Além de aprimorar a capacidade do alcance da informação, estas inovações promoviam trocas que eram impensáveis, permitindo a colaboração de indivíduos com uma separação espacial que normalmente os manteria afastados em um estado potencial de colaboração latente — mas ainda com a falta de uma organização ou app que fizesse isso possível.

 

Mas os grupos organizados estavam inventando o problema para vender 'A' solução, enxugando gelo ou promovendo alguma revolução. Assim era impossível estabelecer um diálogo com costumes tão diferentes e ainda optando pelo conflito bélico ou violência física, que eram parte da violência estrutural ainda praticada regularmente em um nível ou outro, inerente a todos os territórios. Uma faixa do IDH determinava qual o grau de exposição, e naquele território em específico ao menos a violência física era considerada tabu ou no mínimo contravenção legal passível de processo para equiparação e retribuição de danos.

 

Ainda faltavam alguns anos para a maioridade obrigatória, mas agora era um dos excluídos de sua família, e cujas altas expectativas por conta de sua origem e trajetória já haviam sido descumpridas — portanto estava por sua própria conta agora, o que acontecia atualmente em quase todas as famílias. Ele desapareceu da vida pública, trabalhando em empregos temporários que não exigiam declaração de sonhos, observando a sociedade de fora, acumulando observações que ninguém lhe solicitou a fazer e que tampouco eram bem-vindas quando compartilhadas de forma não solicitada. Por anos, ele foi um desconhecido total, um fantasma entre os excluídos, sem voz pública, sem registro no sistema além de sua condição de marginal.

 

Ato II: ENSAIO PARA UM AMANHÃ MELHOR

 

Foi então que ocorreu o evento que mudaria tudo. Os cientistas haviam previsto um blackout do sol a nível mundial que estava previsto para durar cinco anos. A sociedade entrou em pânico, mas a tecnologia existente permitiu a sobrevivência através de geradores de radiação estelar artificial que permitiam até a reprodução de feixes de luz em faixas que simulavam condições climáticas com o controle atmosférico nos casos de cultivo indoor. Esses sistemas otimizavam as colheitas com diversas técnicas que chegavam até a hidroponia avançada. O blackout, no entanto, durou menos do que o previsto — apenas três anos. O sol retornou antes que a sociedade tivesse tempo de se reorganizar completamente em torno das novas tecnologias de colaboração forçada pela emergência.

 

Após o retorno do sol, era evidente que existia um potencial de organização onde a tecnologia permitia uma escalada em colaboração para a evolução da sociedade — unificando o glossário de descobertas e promovendo a transparência entre as fronteiras, abolindo qualquer forma de violência estrutural ou de qualquer outra natureza. Mas os três anos não foram suficientes para consolidar estas mudanças. As velhas estruturas ainda estavam em lugar, os intermediários ainda mantinham suas redes de influência, as facções ainda polarizavam o discurso. A sociedade voltou rapidamente ao que era antes, como se o blackout tivesse sido apenas uma pausa temporária e não uma oportunidade de transformação. A tecnologia estava lá, mas faltava alguém que articulasse seu potencial, que mostrasse o que poderia ter sido e ainda poderia ser.

 

Ato III: SONHANDO [MAS] ACORDADO

 

Decide fazer a única coisa que a ética permite e exige de um cidadão comprometido com a sociedade: abre um canal de streaming expondo suas conclusões. O início é duro e, conforme o esperado, quase ninguém assistia seus vídeos, e tampouco dentre os poucos que o assistiam alguém terminava. Ainda assim, era a única coisa que podia pensar em fazer. Ele falava de estrutura, de intermediários, de como a tecnologia do blackout poderia ser redirecionada para transparência e colaboração real. Seus vídeos eram longos, tediosos, cheios de dados e análises que exigiam paciência para acompanhar. As plataformas não favoreciam este tipo de conteúdo, e os algoritmos o punham com visibilidade mínima.

 

Mas (muito) aos poucos, algumas dezenas de milhares de visualizações completas se acumularam ao redor do mundo. A tradução algorítmica permitiu que pessoas de diferentes línguas assistissem e compreendessem seus vídeos. Não eram milhões, não era viral, mas eram espectadores genuínos que chegavam ao fim de produções que duravam horas. Nos comentários, pequenas comunidades se formavam de pessoas que reconheciam nas análises do desconhecido as mesmas contradições que haviam sentido — também em diferentes contextos culturais e territoriais.

 

Logo, começaram a aparecer recortes de seus vídeos em uma escala que sugeria um ataque feito por bots, ou mesmo que estava sendo usado como um alvo para servir de bode expiatório e ferramenta de difusão e sequestro de pauta. Fragmentos de segundos, extraídos de contextos de horas, circulavam com legendas distorcidas. Uma análise metodológica sobre mecanismos de opressão era truncada para parecer apologia. Uma reflexão sobre a necessidade de compreender extremistas era editada como endosso. Os recortes alcançavam milhões, enquanto os vídeos originais mal chegavam a dezenas de milhares. A batalha era assimétrica: horas de contexto contra segundos de sensacionalismo.

 

Ainda assim, a trajetória exposta em seus vídeos servia como sua testemunha e estava alocada em múltiplas plataformas como backup. Ele sabia que poderia estar sendo observado, que suas palavras talvez fossem monitoradas, e que algo poderia lhe acontecer a qualquer momento. Mas continuou produzindo, semana após semana, porque era a única coisa que a ética o permitia fazer. Os comentários dos poucos que assistiam até o fim eram bombardeados com polêmica por aqueles que vinham inflamados pelos recortes descontextualizados que eram espalhados via propaganda por seus opositores.

 

Ele não tentou se defender dos ataques — sabia que seria inútil e apenas forneceria ainda mais munição, já que qualquer resposta pertinente e completa seria impossível devido à complexidade contextual. Além de redundante, pois o próprio vídeo geralmente explicava a contradição do recorte de forma inequívoca. Apenas continuou produzindo, como se estivesse deixando um registro para um futuro que talvez nunca chegasse, já que o otimismo original havia desaparecido e agora apenas restava viva a esperança — ainda em um estado de espera por algum milagre.

 

Ato IV: INVISÍVEL E/OU INDIZÍVEL E/OU INDIVISÍVEL: O PIOR CENÁRIO ESTABELECIDO

 

Então o que ele próprio havia previsto como falha crítica, seu próprio assassinato, aconteceu. Ainda assim, mesmo estando dentro do escopo de possibilidades, foi além de suas expectativas e não parou por aí. O crime foi rápido, executado por alguém habilidoso, e o culpado fora apresentado como 'fanático isolado' sem conexões com qualquer grupo organizado. As autoridades concluíram a investigação em tempo recorde, e a versão oficial — um assassinato aleatório cometido por um desequilibrado — foi amplamente disseminada antes que qualquer análise independente pudesse ser realizada. A morte de um desconhecido que produzia vídeos tediosos para uma audiência minúscula, e cujos espectadores estavam espalhados por múltiplos territórios não formando nenhum nicho ou grupo organizado, não merecia muita atenção da imprensa. Uma nota de rodapé, alguns artigos repetindo a versão oficial, e o assunto estava encerrado.

 

Mas então algo que não estava dentro das previsões do eliminado tomou forma: a campanha de difamação póstuma, onde atribuíram ao assassinado crimes e contravenções fictícias como sua responsabilidade. Documentos forjados apareceram em plataformas anônimas, supostamente provando desvios durante o blackout, colaborações com grupos extremistas e plágio de ideias - todas ignoravam as intenções claras de estabelecer clareza e transparência na comunicação e promover a cooperação em larga escala. A distribuição de informações falsas era sistemática, coordenada, financiada por recursos que sugeriam envolvimento de grupos poderosos. Recortes de seus vídeos já descontextualizados ganharam nova vida como 'provas' de suas supostas atrocidades. A narrativa de um 'perigoso agitador' eliminado por outro perturbado consolidou-se rapidamente, repetida por bots e contas coordenadas até se tornar a única versão disponível — amparada pelos algoritmos que sustentavam a verdade como sendo a versão mais repetida e amplamente aceita, transformando qualquer um que tentasse expor a complexidade do caso em um conspiracionista.

 

Os longos vídeos explicativos e tediosos, que eram sempre bombardeados com polêmica nos poucos comentários de quem ouvia até o fim por aqueles que sequer os assistiram e já vinham inflamados pelos recortes descontextualizados espalhados via propaganda por seus opositores, foram removidos das plataformas principais por 'violação de diretrizes'. A justificativa mudava a cada semana — direitos autorais falsos, desinformação, conteúdo extremista — mas o resultado era sempre o mesmo: apagamento. Aqueles que tentaram defender sua memória foram atacados como se fossem cúmplices de suas supostas atrocidades, forçados a escolher entre o silêncio e a destruição de suas próprias reputações.

 

O que forçou até sua origem sanguínea a realizar o rito de excomungação, 'removendo' o sobrenome daquele que agora era considerado pária para dissociar o polêmico membro e evitar a completa perda da credibilidade dos demais. Poucos tiveram coragem de insistir. Mas os backups existiam. Em múltiplas plataformas descentralizadas, os vídeos completos permaneciam — horas de análise metódica, de propostas concretas, de reflexões sobre o movimento que a sociedade poderia ter iniciado durante o blackout e ainda poderia ser estabelecido. A testemunha que ele deixara não era reconhecida por tribunais ou autoridades, mas existia, aguardando aqueles poucos dispostos a investir o tempo necessário para compreender.

 

Ele morreu sem nunca ter declarado um sonho ao Registro Público, um excluído até o fim, mas sua voz permanecia em servidores distribuídos pelo mundo, esperando por novos mensageiros.

 

EPÍLOGO

A sociedade continuou como antes, com suas facções polarizadas, seus intermediários ocultos, sua pirâmide de influência e exclusão. A tecnologia que poderia ter unificado foi apropriada por grupos que a usaram para aumentar as rachaduras entre os indivíduos e consolidar seu poder. A transparência tornou-se uma buzzword esvaziada e associada a tirania e opressão. Mas em algum lugar, talvez outra criança crescia com o mesmo terror por não ter um sonho, a mesma capacidade de perceber contradições, a mesma determinação silenciosa de encontrar outro caminho. E talvez, a semente plantada por um ser incapaz de sonhar sozinho, estaria germinando as futuras gerações para que não precisassem declarar sonhos individuais porque compartilhariam um horizonte coletivo ; e onde a violência em todas suas formas fosse abolida não por decreto de superiores, mas por decisão de iguais que haviam aprendido a confiar uns nos outros. 

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