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#alcateia

 

Pedro era um ‘quase’ órfão que vivia em um pequeno vilarejo nas montanhas. Sua mãe tinha a saúde frágil e estava acamada desde que seu pai se voluntariou como soldado, em ordem de cumprir a cota de recrutamento obrigatória para permitir que seu vizinho que fora convocado pudesse ficar e cuidar de seu recém nascido.

 

Para o menino solitário, que passava seus dias pastoreando ovelhas para comprar os remédios da mãe e ficar de olho no horizonte à espera de seu ‘papa’ retornar, a linha de árvores que demarcava o início da floresta, mesmo borrada e com suas sombras dançantes, era o motor de sua imaginação e constantemente lhe pregavam peças com silhuetas que não estavam realmente lá.

 

Antes de partir, seu pai lhe disse que era o melhor para fazer pela comunidade, e lhe confiava os cuidados de sua mãe e do rebanho até que retornasse.

 

Sua mãe, cada vez mais frágil, estava pálida e com olheiras escuras apesar de sempre esboçar um sorriso gentil e ainda murmurar com frequência o nome de seu marido durante o sono.

 

Então, ficou órfão de vez. O funeral foi modesto, em um dia terrivelmente ensolarado e quente, com pássaros cantando e sem sequer uma nuvem, faziam o menino pensar que Deus estava zombando de sua tristeza.

 

Tudo que lhe restavam eram suas ovelhas e a esperança de seu pai se materializar de alguma das silhuetas, retornando da batalha.

 

Certo dia, ao invés de ver seu pai como ansiosamente esperava, avistou um lobo no horizonte e imediatamente disparou em pânico na direção do vilarejo para alertar os moradores, que na hora pararam seus afazeres e se armaram à espera do predador, mas o lobo não apareceu e tampouco houve subtração de quaisquer uma de suas protegidas.

Ele jurou que havia visto um lobo no limite da floresta, mas os moradores disseram que há mais de cem anos que a última alcatéia havia sido exterminada por seus ancestrais e que desde então nem mesmo um cão fora visto por aquelas bandas.

Em constante vigilância, sabia que havia visto a silhueta de um e mesmo tendo sido desacreditado seguiu atento ao perigo. Alguns dias depois, novamente disparou gritando com todas as suas forças ‘olha o lobo!’, aconteceu nova mobilização dos aldeões e mais uma vez, nada aconteceu. Como da primeira vez, o menino jurou que havia visto mas diferente do outro alarme falso, ganhou um puxão de orelha do ancião que não segurou o peso da mão para dar uma lição ao mentiroso - o inverno estava chegando e não havia tempo a perder.

 

De olhos semicerrados e mesmo com a orelha vermelha e latejando, ficava de olho no horizonte com ainda mais afinco, após o primeiro avistamento, havia tido pesadelos cada vez que deitava para dormir, onde uma alcatéia invadia o vilarejo e devorava a todos. Embora estivesse morrendo de medo, não podia permitir que isso acontecesse.

 

Três dias depois, dessa vez, tinha certeza que havia um lobo e novamente se pôs a toda velocidade em direção ao vilarejo para alertar os moradores, que para sua surpresa imediatamente começaram a gritar xingamentos ao menino e algumas crianças inclusive atiraram pedras. Ainda assim, mesmo sangrando com a hostilidade que o atingiu fisicamente, ele insistia que estavam em perigo e que havia visto um lobo nos limites da floresta - inclusive deixando escapar seu pesadelo - o que acabou por remover as últimas migalhas de sua credibilidade e agora além de conhecido como mentiroso era também um medroso.

 

Determinado a proteger o vilarejo, mal piscava ao observar a floresta. Desta vez, foi a silhueta de um homem que apareceu no horizonte e que o fez instintivamente começar a correr em direção a essa, acreditando pertencer a seu pai.

 

Entretanto, ao se aproximar, percebeu que era um caixeiro viajante e quando caiu em si, lágrimas escorriam por seu rosto. O homem cumprimentou o menino sem prestar atenção aos soluços e seguiu em direção ao vilarejo sem sequer diminuir o passo.

 

Passou-se uma semana e nenhum sinal do Pedro ou de nenhum lobo. O vilarejo estava em sua rotina costumeira na preparação para o inverno, quando o silêncio e a harmonia foram novamente interrompidos com os gritos desesperados no horizonte.

 

Após sua vigília incessante, o menino apareceu sujo e esfarrapado e ainda mais esquelético do que já era, gritando em plenos pulmões e de olhos arregalados “os lobos ‘tão vindo!” mas ninguém lhe deu ouvidos e ainda fora tratado como se fosse invisível.

 

Embora tentasse de tudo para se fazer notar, não conseguiu que ninguém o escutasse, até que o ancião o pegou pelo braço e saiu arrastando o menino até um armazém onde ficavam os grãos e o trancou lá dentro sem dizer uma só palavra, apesar dos protestos incessantes de Pedro.

Nem dois minutos haviam se passado, quando uma alcatéia invadiu o vilarejo e o terror pegou todos desprevenidos.

 

Dois dias depois, os caçadores que haviam partido para adquirir suprimentos, encontraram um vilarejo vazio e ao abrir o armazém, encontraram o único sobrevivente encolhido e catatônico em um canto.

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