#folclore_ou_folk_lore
Era uma vez uma comunidade formada por gente boa e que vivia a maior parte de seu tempo em paz, cuidando de seus próprios assuntos sem bisbilhotar o próximo — mesmo que haja quem jure de pé junto o contrário. Eram acostumados a confraternizar enquanto desfrutavam de ingredientes de origem animal, esses obtidos de forma lícita e criados basicamente para fins alimentícios até mesmo por grupos e/ou indivíduos locais, muitos deles vizinhos desde seus antepassados.
Essa atitude gastronômica era algo corriqueiro e natural, vindo de gerações anteriores e passada de pai para filho desde o estabelecimento naquele território de abundância, mas que fora obtido a duras penas por seus antepassados.
Em algumas culturas, esse extrativismo e precificação de um ser vivo capaz de andar com as próprias pernas era considerado tabu, mas ali era apenas o modo como as coisas sempre foram.
Mesmo que a pesca nos rios fosse algo comum entre os locais, algo relativamente recente em comparação com a criação dos animais terrestres foi o incentivo para o cultivo de espécies não nativas em açudes, ainda pouco explorada em contraste com os demais animais de corte já estabelecidos na cultura local e que podiam ser encontrados sem dificuldade já prontos para serem preparados para consumo.
Eram adeptos da religião e da fé que diziam mover montanhas — embora já utilizassem máquinas modernas como tratores, escavadeiras e colheitadeiras — ainda rezavam pedindo por uma intervenção climática que favorecesse seus esforços.
Mesmo que fossem uma comunidade unida se vista de fora, havia dramas centenários que mantinham cicatrizes entre as famílias desde antes do tempo do bisavô, e a maior parte das terras pertencia a um punhado de gente que dividia o mesmo sobrenome, embora já fossem primos ao invés de irmãos devido às ramificações das famílias. Isso se traduzia e estendia ao campo da política, que, apesar de seguir o código de leis e calendário da federação, era apoiada pelos próprios acordos e contornava quaisquer intempéries com os próprios meios, inclusive a prefeitura era normalmente ocupada por algum dos primos, em algo que poderia ser considerado um rodízio oscilante de acordo com a economia e ciclos de governança que naturalmente se alternavam entre os grupos familiares que também cultivavam laços e rivalidades com as prefeituras vizinhas, cada município tinha seu próprio punhado de ‘Sócios Majoritários’.
Algumas cidades que não possuíam nem cinco mil habitantes eram grandes o suficiente para acomodar rixas entre bairros e distritos, embora ocasionalmente se unissem quando o incidente ou acidente envolvia algum município vizinho, principalmente se envolvesse disputa de recursos vindos da União.
Quase tão comum quanto um ‘bom dia’, na boca dos habitantes, outra sequência de palavras era que os ‘jovens estavam ficando cada vez mais escassos’, embora estivessem se referindo a mão de obra barata e não houvesse nenhuma preocupação relacionada a políticas sociais na frase, já que as novas gerações de famílias latifundiárias geralmente assumiam os negócios que eram compostos ao menos de uma parcela significativa de cunho agropecuário, embora houvesse empresários cujos negócios não envolvessem as atividades agrárias.
A tecnologia vinha simplificando a gestão e proporcionando uma automatização conveniente, especialmente levando em consideração a falta de gente disposta a trabalhar, assunto análogo a um ‘quebra-gelo’ entre empresários e políticos da região quando alegavam que os jovens de antigamente eram superiores aos de hoje.
Como eram gente adepta à tradição, muitos acabavam sendo intransigentes quando qualquer ocorrência ameaçava o modo de vida estabelecido naquelas bandas, independente do rótulo que vinha na embalagem da novidade, calejados pela propaganda que usou o progresso de forma leviana até na abolição da escravatura — ao invés de escolher um tom de pele específico para explorar, seguiu as tendências das maiores potências mundiais e optou por evoluir para um sistema mais abrangente e neutro ao se apoiar em camadas de poder aquisitivo e nível educacional para gerenciar a população, estendendo (e empurrando) a cortesia da subsistência para qualquer grupo que não fizesse parte do clube dos primos.
Esse sistema promoveu uma ascensão vertical nas linhas gráficas do acúmulo de capital como nunca antes vista, ao menos no que diz respeito a quem já tinha um montante considerável — chamavam de milagre dos juros compostos.
Claro, a expansão também trouxe oportunidades aos menos afortunados, que precisavam servir de intermediários e propulsores para permitir e promover a modernidade em um movimento digno de um alpinista (social) que deveria ser considerada, ao menos de forma metafórica, como a escalada mais perigosa existente hoje, já que, ao menor puxão de tapete (ou mesmo um ‘tapinha nas costas’), olho roxo, nariz quebrado e um ou dois dentes a menos seriam considerados ferimentos leves, com o potencial risco de perda total por queda vertiginosa somada à política de exclusão em vigência.
Esse fenômeno comportamental não era exclusivo deste pequeno território no interior do interior. Apesar de haver diferenças culturais, eram, em suma, superficiais em contraste com a estrutura organizacional que transcendia costumes, fronteiras e tampouco era novidade ou havia ficado para trás.
Como tudo, se modernizou e sua roupagem foi atualizada para caber na sociedade contemporânea como um fator (des)estrutural para permitir e promover a segregação, impedir o diálogo aberto, causando polêmica e rupturas que tornavam a averiguação da origem das inconsistências até invisível — apesar de estar todo mundo vendo o resultado de causa e efeito.
Para os mais atentos, era verificável através de qualquer análise meia-boca das engrenagens do mercado e do rastreamento e leitura de rótulos — sejam eles literais em um produto físico (ligando item ao conglomerado) ou atribuídos conceitualmente de forma ambígua para gerar um impasse. Aqueles que apontavam as inconsistências frequentemente ganhavam o atributo virtualmente irrevogável de conspiracionista, ‘preso’ entre aqueles que acreditam (ou querem acreditar) que o ser humano é ‘intrinsecamente bom’ contra aqueles que acreditam que o ser humano é ‘inerentemente mau’, inclusive incluindo quem acha que é bom e é mau e vice-versa, enquanto há ainda quem perceba a dificuldade em estabelecer um diálogo produtivo e se propõe a apagar incêndios ou mesmo se isenta em participar enquanto assa seus ‘marshmallows’, aproveitando o acalorado impasse.
Se você achou familiar ou similar o contexto desse texto, fique tranquilo, caro leitor, pois isso é apenas uma trajetória de ficção especulativa sem nenhum lastro na realidade e apenas com fins de entretenimento, sem nenhuma pretensão de quebra-(de)-cabeça, paradigmas ou parede.
Como dizem por aí, ‘o sol é para todos’ (mas a sombra é só para alguns) — embora na Escandinávia haja quem diga o contrário.
