5'T-IV
'Sea Gown'
Estava buscando um local para se estabelecer definitivamente, mesmo que estadias de curta temporada fossem predominantes e, 'tecnicamente', fosse um andarilho. A maior parte das viagens memoráveis eram aquelas pelas quais não nutrira expectativas, pois nem sempre a propaganda ou relatos de terceiros correspondiam à realidade. Enquanto não encontrava sua morada, desfrutava da expansão de sua perspectiva ao entrar em contraste com cada povo que acabava por conhecer, sendo o destino escolhido ao acaso ou através de planejamento meticuloso.
Em um determinado momento de sua juventude, cruzara seu caminho o Aikido: a arte de usar a energia e a linha do ataque adversário, guiando o movimento do atacante por redirecionamento e desequilíbrio, para neutralizar e controlar o oponente. A partir dali, seu ímpeto adquiriu uma certa dose de moderação, pois até mesmo conflitos verbais atraíam interesse indesejado em sua direção - meramente pela transferência da técnica obtida com a disciplina marcial para o campo da retórica.
Diziam que havia nascido um cara abençoado, desde sempre fora o maior de sua turma e, além disso, tinha talento para causar machucados intencionalmente - um efeito colateral do interesse precoce em anatomia. Apesar do fato de nunca ter sido derrotado em combate, era abertamente pacifista, ao menos no que se dizia a respeito a violência física, pois sua impetuosidade também lhe colocava em saias justas ocasionais.
Durante sua peregrinação, em um momento de calor estafante, lembrou de uma moda exótica que era comum em um dos locais que conhecera. Apesar de ser uma vestimenta que contradizia a própria matriz cultural de sua localização atual, acreditava ser uma solução simples e prática para sobreviver às intempéries ambientais daquele território ao qual estava atualmente chamando de lar - apesar da hostilidade climática que fazia parecer que existia um sol para cada habitante.
Determinado a comprovar e demonstrar a conveniência da 'nova' indumentária que importara de uma terra distante, fora ostracizado pela mídia logo que as vendas começaram a decolar.
Devido ao crescimento exponencial da parcela da população que adotara a 'novidade', mesmo que fosse ainda uma minoria, acabara em confronto direto à cultura de diversos grupos. Sua ideia causara uma polarização aparentemente irremediável entre seus clientes e aqueles que receberam a ideia com feedback negativo e vexatório. Mesmo com tudo isso, permaneceu centrado e deu continuidade aos negócios, ciente de que esse acontecimento era oriundo das campanhas conservadoras promovidas pelos diretamente envolvidos com a manufatura e distribuição dos 'itens clássicos'.
Segundo alguns vanguardistas influentes, cujo resultado de suas opiniões fora a adição de ainda mais 'lenha na fogueira', os paradigmas clássicos de vestimenta estavam fadados a - no mínimo - uma drástica redução de adeptos. Apoiados nas pesquisas mais recentes que apontavam os mais jovens como os principais aderentes à nova cultura, mas já se espalhava às demais faixas etárias. O segundo grupo mais numeroso de usuários sendo os aposentados - que atribuíam a simplicidade e o baixo custo como fatores decisivos para a tomada de decisão.
A alteração abrupta dos costumes sem a autorização dos pares responsáveis por aquele setor eram consideradas 'alheias às boas práticas mercadológicas' e o resultado, não raramente, ia desde suspensão ou mesmo a parada completa e encerramento total das atividades de forma permanente e irrevogável. Ainda assim o debate ocasionado pelo interesse no tópico era análogo a uma bola de neve que ainda não havia colidido e as diversas tentativas de enquadramento como uma possível irregularidade, apenas adicionavam mais complexidade ao tema sujeito a debate que dividia famílias e causava demissões.
O embate contra os conservadores da indumentária clássica fora voraz e acabou por colocar a existência da loja na ponta da lança de um movimento revolucionário que visava a desapropriação do sistema vigente - o que essa ativamente buscava se afastar e se desvencilhar - apesar dos esforços para mantê-la no olho do furacão.
Haviam muitas ideologias diversas que pertenciam ao movimento de desapropriação e essas operavam de forma assíncrona mas sempre em direção ao mesmo objetivo. Mesmo esse modelo não impedia 'conflitos internos' ocasionais, geralmente acarretando em eventos de violência física, não mediadas. Entretanto, para os participantes isso fazia parte do protocolo tradicional, cujo código de honra era resolver entre os envolvidos na ocorrência pontual. Embora, na prática, servisse como justificativa e precedente, permitindo uma corrente de causa e efeito onde nem era mais possível enxergar a âncora.
Quando envolvia danos colaterais a transeuntes e alheios, dependendo da proporção, outros grupos eram envolvidos ou mesmo ocorria a condenação através daqueles que operavam além do código de honra - variando de acordo com a pressão feita pela maior parte da população que era adepta de um código de leis próprias e atreladas ao território.
Esse cenário de instabilidade se originou com o estabelecimento da loja Sea Gown, sendo esse o nome da marca que (segundo o próprio manual, homenageava a cultura original da ideia), localizada no quadrante 5, na intersecção da T com a IV, e cujo negócio era vender vestidos longos, chapéus, sombrinhas e capas com capuzes de cores claras para antagonizar o clima escaldante ocasionado pela radiação estelar intensa que assolava por dois terços do dia na maior parte do ciclo de translação.
O utilitarismo 'pioneiro' foi utilizado como ferramenta de Soft Power* pela parcela dominante da população. Aqueles desfavoráveis eram em decorrência da lei em vigor no território permitir o monopólio por dez anos para 'novos conceitos' e para agravar a situação era um acordo tácito honrado também entre aqueles que operavam além da lei territorial e seguiam o próprio código de conduta.
Mesmo que muitos entre esses, simplesmente não se permitiam perder qualquer oportunidade de alavancar seus próprios interesses, porém foram poucos os que optaram por posicionar-se de forma concreta na polêmica do momento devido à garantia de exposição - um fator decisivo para afastar a maioria dos usuais adeptos à quebra de protocolo.
O conflito perdurou de forma intensa até que a lei de monopólio acabou por perder a valência, levando muitos daqueles ativamente antagonistas a imediatamente abrirem lojas com conceitos similares ao Sea Gown. Quem evitava expor sua marca consolidada ao rebranding** optara por criar novas marcas de 'conceito independente', mas propulsionadas e apoiadas no novo paradigma de vestimenta.
Paralelamente exploravam grupos menores com necessidades distintas, fomentando a abertura de nichos subjacentes e/ou bolhas culturais orientadas às novas tendências de consumo de itens que se integravam melhor ao ambiente.
Após a polêmica iniciada na 5'T-IV perder força, essa - que fora embasada em argumentos recorrentes de divisão de gêneros e na oposição ideológica entre cada rótulo e sub-rótulo, multiplicada, promovida e agravada através da cultura dominante no mainstream*** - agora servia para propulsionar a integração com outras abordagens que utilizavam a evolução da tecnologia como pivô de alavancagem para a diferenciação do indivíduo e que fizeram a Sea Gown, já apenas uma entre muitas opções disponíveis, finalmente encerrar suas operações.
#pordentrodatrama
A razão do fechamento da Sea Gown, segundo o próprio fundador, e o que permitiu resistir ao interesse público e a tantas polêmicas, calúnias, projeções, assédio e difamações foi a participação de múltiplos agentes com agendas antagonistas - considera essa única vantagem estrutural da situação específica que suportou. Esse fator isolado foi diretamente responsável pela possibilidade de permanecer obstinado mesmo estando sob escrutínio constante e sem trégua nem dos paparazzi.
Afirmando que a decisão de se aposentar veio apenas após a entrada de novas tecnologias (e das inúmeras cópias de sua antiga loja) escolhendo viver de forma tranquila em um local remoto e silencioso - pois já seu havia realizado seu objetivo - e finalizando completou: “jamais esperaria que a ideia de vender vestidos longos como uma alternativa sensata ao bioma seria taxada até de ato revolucionário, apenas por sugerir o uso de uma vestimenta 'sagrada' em outro país, apesar dessa servir como 'EPI' para um local que tinha 'livre mercado' incluso até no hino nacional” - uma ironia que o fez sorrir com olhos marejados.
Em seu 'oásis de serenidade', onde passa a maior parte de seu escasso tempo ocioso, acompanhando a 'polêmica atual' sobre o #tbt - atualmente dividida entre os 'originais' clamando que a tag é de uso exclusivo para 'quintas-feiras****' enquanto a outra metade repete que o 'correto agora' é #throwbacktoday pois é sinônimo de 'dia de postar sobre o que já aconteceu' e muito mais alinhado ao uso real da hashtag*****.
GRISEO, Felipe M - #tbt #seagown #5'T-IV #hestória #pioneiro #monopoly
812'R-66 Y {Quadrante 812 na interseção da R com a sexagésima sexta - unidade Y}
*soft power (ou "poder brando/suave") é a capacidade de um país influenciar comportamentos, interesses e políticas de outras nações por meio da atração e persuasão, em vez da força militar ou econômica (hard power). Baseia-se em recursos intangíveis como cultura, valores políticos, reputação e políticas externas.
**Rebranding é o processo estratégico de renovar ou ressignificar a identidade de uma marca, indo além da mudança visual (logo, cores) para alterar como ela é percebida pelo público. Envolve atualizar valores, posicionamento e comunicação para acompanhar tendências, corrigir imagens negativas ou reposicionar a empresa no mercado.
***Mainstream significa a corrente principal, predominante ou convencional de pensamento, cultura ou comportamento, amplamente aceita pela maioria. Originado do inglês (fluxo principal), o termo refere-se a produtos, músicas, artistas ou ideias populares, difundidos pela mídia de massa, como pop, rádio e grandes portais. É o oposto de underground, nicho ou contracultura.
****#tbt foi ‘originalmente’ lançado como #throwbackthursday
*****Uma hashtag é uma palavra ou frase precedida pelo símbolo cerquilha/jogo da velha (#), utilizada em redes sociais para categorizar, indexar e agrupar conteúdos sobre um mesmo tema. Ela transforma palavras-chave em hiperlinks clicáveis, facilitando a busca e aumentando a visibilidade das postagens para usuários interessados naquele assunto.
