Sobre as Nuvens
Era uma vez um rapaz que tinha uma vaca. Morava somente com sua mãe, numa cabana afastada na periferia de um pequeno vilarejo, onde uma seca havia destruído as plantações e tampouco restava comida para eles ou sua única companheira malhada.
Então sua mãe o mandou ao vilarejo para vender a vaca e comprar comida, já que naquele ritmo iriam morrer os três de inanição.
No caminho ele se deparou com um acampamento de viajantes*, e após o rapaz contar-lhes o motivo de estar na estrada, estes lhe disseram que haviam acabado de retornar do 'Reino Sobre as Nuvens', onde adquiriram tesouros e boa fortuna. Então ofereceram sementes especiais que o fariam também ser capaz de alcançar tal lugar, mas não poderiam simplesmente dar-lhe sem receber nada em troca.
O rapaz, percebendo a oportunidade única, aceitou o acordo e deu meia volta, retornando antes mesmo de chegar ao vilarejo, para informar sua mãe sobre a novidade.
Antes que conseguisse contar a história toda, sua mãe ficou furiosa, esbofeteou sua face e gritando disse: Você nos condenou à morte! Como acreditaste nessa loucura?! Aceitou meros feijões pela nossa última esperança? Apanhando a 'pechincha' da mão de seu filho, as atirou pela janela em fúria.
O rapaz atônito, nunca havia presenciado sua mãe se comportar daquela maneira e correu para o celeiro onde antes ficava sua vaca, ainda sentindo o peso da mão de sua mãe em seu rosto pálido enquanto lágrimas frias realçavam o contraste com sua bochecha vermelha e quente.
Depois de uma noite de pesadelos na qual mal conseguira pregar o olho, ao sair do pequeno galpão após o amanhecer, se deparou com uma planta que alcançava às nuvens e, antes de sequer lavar seu rosto, imediatamente se pôs a subir em busca da boa fortuna que havia sido prometida.
Obstinado, mesmo com o frio na barriga e a vertigem, prosseguiu com a escalada enquanto ensaiava em voz alta a conversa com sua mãe. Como não conseguia olhar para baixo, as formas das nuvens e os raios de sol que as transpassavam, por vezes o faziam sentir como se ela estivesse ali - subindo com ele, enquanto repetia a cena na qual mostrava as riquezas que trouxera de volta e provando que não estava louco ao trocar sua querida vaca por sementes mágicas. Podia 'quase' ver a expressão orgulhosa de sua mãe em sua mente.
Suas mãos estavam em carne viva já exaustas e suas pernas tão trêmulas que mal paravam de pé quando finalmente chegou às nuvens mas, para sua surpresa não havia castelo. O que realmente conseguia enxergar era uma casa muito grande, ou melhor, gigantesca, muitas vezes maior do que toda a extensão do vilarejo que conhecia muito bem.
Ao caminhar em direção a construção, avistou a maior galinha que já vira se aproximando e ficou imaginando o omelete que poderia fazer com apenas um de seus ovos ; essa quando percebeu o rapaz, veio rapidamente em sua direção e o devorou sem fazer cerimônia.
Sentado no interior da 'grande casa' enquanto tomava um gole de seu café, sorriu ao ver sua galinha ciscar e bicar algo no jardim como era costumeiro, sem saber que dessa vez não fora uma minhoca ou praga, enquanto descascava um ovo cozido de casca dourada para comer.
Os moradores do vilarejo, ao perceber que recentemente não haviam recebido notícias nem da mãe ou do rapaz, foram verificar para ver se estava tudo bem. Ao chegar encontraram o casebre silencioso e gelado, onde uma mulher muito magra estava com uma corda ao redor do pescoço e pendurada em uma viga do telhado que sequer possuía forro. No celeiro encontraram o rapaz encolhido no chão, com sementes desconhecidas próximas da palma de sua mão vazia e esquelética, com a boca aberta, olhos arregalados e opacos - já sem vida. Mas não havia nenhum sinal da última vaca da família.
– Não foi assim! Disse o homem interrompendo abruptamente o contador. Se levantando para impedir que o fogo ficasse em sua frente, continuou:
– Os vizinhos curiosos, ao avistar aquela anomalia vegetal, foram prontamente verificar o que era. Ao chegar encontraram uma casa silenciosa onde a brisa atravessava os cômodos por conta das janelas e portas abertas, onde a mãe do rapaz estava deitada na cama já em seu descanso eterno, mas não encontraram nenhum vestígio de seu filho ou de sua vaca - continuou solene em um tom grave e ritmo pausado.
– Nenhum dos poucos voluntários que escalaram retornara. Afinal, a dificuldade da escalada era um desafio (pre)visível, então decidiram cortar para encerrar o assunto.
Após o encerramento, calmamente passou os olhos pela plateia enquanto tomava um gole de sua caneca fumegante e novamente se sentou e ficou em silêncio saboreando seu desjejum, enquanto algumas ruminações podiam ser ouvidas entre o crepitar do fogo.
...
*Os viajantes seguem com seu rebanho, vendendo queijo e contando estórias ao redor da fogueira enquanto bebem leite quente.
– Se aprochegue junto a fogueira, nobre viajante! Aceite esse copo de leite fresco e quente e compartilhe sua história conosco.
E lá se vai mais um João, ou Maria. Quando o acordo é bom, o gênero não importa ; desde que o rebanho aumente.
...
(A)moral:
Os mortos não inventam estórias, emitem alertas, espalham boatos ou contam histórias.
