{IN(VERDADES) — [N]o sentido de
causa versus efeito perante o tempo linear observável¹ e verificável}:
O sistema de crenças² de cada indivíduo — e sua origem — é um dos fatores mais subestimados da sociedade. Ele é, talvez, o ponto de origem principal dos ruídos e inconsistências presentes na comunicação de múltiplos interlocutores, sejam estes pertencentes a um mesmo grupo ou totalmente alheios ao contexto do outro. Ele delimita o perímetro e as ramificações possíveis do pensamento e da consciência, estabelece um mapa arquetípico e serve como trampolim e/ou circuito prévio para cálculo de trajetória, limites de escolha e ainda responsabilidade das ações realizadas, presenciadas ou mesmo descobertas — sendo elas de origem de terceiros ou registradas como fatos verificados (mesmo quando além da capacidade de compreensão total) — e até esses podem se tornar um ponto de ambiguidade — já que uma 'crença' que não foi invalidada serve como um 'fato' meramente por não ter sido comprovada como falsa (embora tampouco tenha sido ou possa ser validada), apesar de muitas vezes estar apoiada em uma retórica que impossibilita a invalidação simplesmente devido à construção conceitual da própria premissa.
Isso não converte crença em fato ontológico; apenas a torna um fato funcional — uma premissa tratada como verdadeira na prática por custo de contestação, blindagem retórica ou ausência de teste.
É possível que seja uma interpretação radical ou um exagero deliberadamente provocativo, mas se levarmos em consideração que ao menos parte da dificuldade na comunicação é resultado das discrepâncias conceituais posicionadas além da intersecção dos signos compreendidos entre cada ser humano, e a capacidade de sustentar ambiguidades até a obtenção de clareza — no mínimo, dos limites factuais e analíticos possíveis ao contexto situacional em específico sem a necessidade de se posicionar — é variável e irregular até mesmo em indivíduos com trajetórias que podem ser alinhadas sem grandes diferenças de eventos, talvez muitos termos considerados claros sejam análogos a um iceberg (bloco de gelo que se desprendeu de uma geleira). Clareza, aqui, não é concordância: é separar fato, interpretação, intenção atribuída e suposições não verificadas até que o desacordo seja rastreável.
O próprio conceito de verdade também necessita de clareza: o que tende a variar não é a verdade em si, mas o acesso e a justificação das afirmações sobre ela — critérios, contexto e evidências mudam, e com eles muda o que é defensável como verdadeiro.
Fato é que paradigmas hoje inválidos ainda permanecem concretos no imaginário de diversos grupos — validados socialmente e integrados ao seu arcabouço de arquétipos — porque em um tempo passado expandiram limites geracionais. No presente, muitos deles tornaram-se obsoletos ou foram desmentidos/desmontados por novas evidências e pela integração cognitiva³ aplicada ao acesso ampliado a instrumentos e registros proporcionados pelas tecnologias atuais, inclusive de forma assíncrona e anacrônica. O resultado é um aumento de inconsistências comunicacionais que, em casos mais severos, inviabiliza o diálogo. Mesmo quando o mecanismo completo escape, os rastros e consequências podem permanecer verificáveis.
Para qualquer conceito ser posicionado sem ambiguidades ou ruídos entre duas ou mais partes (e até mesmo durante o diálogo interno), precisa estar alinhado a um contexto definido através de parâmetros, vetores e valores⁷ pertinentes à situação específica, e, após o alinhamento, no mínimo, entre aqueles envolvidos diretamente e preferencialmente estendido até os indiretamente afetados perante o que está sendo investigado, debatido ou verificado — algo que pode parecer perda de tempo, maçante ou desnecessário mas é um fator intrínseco para o estabelecimento e afinação de um glossário que permita a existência de uma base sólida entre os interlocutores.
A 'verdade' pode até doer, mas ela empodera e liberta, forçando o confronto entre perspectivas e absorção factual que permite um ajuste de trajetória mediante os novos dados.
A mentira ou distorção (e/ou omissão) dos fatos de maneira consciente (e até 'inconsciente⁸'), mesmo que bem intencionada, acaba por causar um descolamento entre causa e efeito, e, portanto ocasiona acúmulo de dano sobre o tempo, aumentando o potencial de erosão da linearidade estabelecida que dificulta seu fechamento decorrente de sua virtual inexistência ou se tornando uma armadilha — cuja superfície está encoberta mas se receber pressão suficiente⁴ acaba por ceder — tornando inviável sustentar múltiplas versões sem contradição, revelando a profundidade da falha. Isso se agrava quando a 'mentira' é algo que causa uma bifurcação completa⁵ na realidade e se torna a origem de um campo de armadilhas e/ou pontos cegos⁶, forçando um reajuste constante por parte do propagador e arrastando aqueles envolvidos (voluntária ou involuntariamente) a essa linha paralela de eventos que são expostos a uma bolha distorcida de narrativa.
Mesmo a crueldade sincera, ainda é (ou deveria ser) um fator benéfico para quem a recebe, embora nem sempre seja o caso para quem desfere, desde que seja baseada em fatos e não um ataque de ordem pessoal. O problema com a rede de mentiras ou mesmo o aprofundamento do buraco ocasionado pela manutenção delas, é que isso causa dano também no interlocutor, talvez, até mais severo dependendo do caso específico — pois diferente do(s) alvo(s) ou vítima(s) da distorção, quem está no epicentro não pode se desvencilhar sem que haja o esclarecimento ou que aquele evento acabe se tornando irrelevante, ainda assim forçando um reajuste de trajetória no propagador na maioria dos casos.
Já que verdades são, muitas vezes, difíceis de distinguir de mentiras pois necessitam de clareza situacional de acordo não somente ao contexto presente mas também 'atemporal' — referente ao alinhamento de passado, presente e futuro em contraste com a trajetória estabelecida pelos envolvidos.
A questão é que enquanto não construirmos relacionamentos baseados em transparência e clareza, haverá intempéries apenas resultantes das lacunas na comunicação — mesmo essa bem intencionada.
O reajuste de trajetória e posicionamento sem gerar uma dívida de incerteza ou perda de credibilidade, é possível (ou deveria ser) desde que haja transparência e que um diálogo honesto e sincero esteja sempre disponível como fator de mediação. É inevitável que o indivíduo sofra alterações mediante o tempo decorrido, e quando existe uma captura ou aprisionamento de perspectiva, posição e narrativa, por quaisquer razões, o potencial de reajuste mútuo sofre uma diminuição de percentual.
Quando uma ou mais partes exigem ou necessitam de fatores constantes que foram atribuídos a terceiros como pilar de sua própria narrativa, ocorre uma manipulação em cadeia que acarreta omissões, no melhor cenário, apenas para manutenção da narrativa e/ou projeção da realidade.
Mesmo alguém que estivesse inicialmente posicionado como 'correto' ou idôneo, através da manutenção de narrativa onde (decorrente desse hipotético detentor da 'verdade'), a outra parte é impedida de sair do rótulo, independentemente do contexto ou argumentos e, o aprendizado e melhorias passam a significar que o controle de narrativa precisa ser revisto, ao escolher se fixar ao estado inicial como mais relevante apesar dos aprimoramentos ou novos acontecimentos, o quociente de consequências danosas passa a receber incremento tanto a cada nova tentativa de igualar quanto de realizar a manutenção do relacionamento dos participantes da situação específica.
Logo, quanto mais discrepância houver na relação inicial, maior o fator de ruído (ao longo do tempo) em contraste com a incapacidade de reajuste de posição, principalmente de quem detinha (ou detém) o maior capital moral ou credibilidade, seja isso de comum acordo ou através do posicionamento unilateral que fora estabelecido inicialmente.
O que torna ainda mais complexo é que para que isso ocorra naturalmente, todas as partes precisam ser capazes de exercer um estado de metacognição e optar conscientemente pelo protocolo de transparência, o que inclui sinceridade até mesmo (e principalmente) com seu diálogo interno. Se for possível, um estado de metacognição reversa⁹ é desejável — onde o indivíduo incrementa a metacognição, sendo também capaz de se desapegar ou omitir (rotular e suspender) seu viés pessoal para incrementar a capacidade de compreender o contexto situacional externo, diminuindo atrito e ruídos.
“O caminho (só) para frente (só) existe no ritmo {e no momento} do atual passo, todo o restante é projeção, ilusão ou resíduo in[f]erente ao passado — presente contínuo 'cadencia' — à trajetória perma(i)ne(re)ntemente entrelaçado(s).”
GRISEO, Felipe M
GLOSSÁRIO:
¹Observável: aqui, significa aquilo que deixa rastro; 'verificável', aquilo que pode ser testado por consistência temporal, corroboração independente e compatibilidade com consequências repetidas.
²sistema de crenças: entenda o conjunto de premissas que filtra evidência, define o que é aceitável como explicação e delimita o que o indivíduo considera possível, improvável ou impensável.
³Integração cognitiva: capacidade de se anexar novas informações ao conjunto de dados de um indivíduo.
⁴pressão suficiente: qualquer teste de consistência que exija rastreabilidade (registro), coerência temporal, corroboração independente.
⁵bifurcação completa: ocorre quando duas versões do mundo exigem comportamentos incompatíveis e demandam gerenciamento ativo de quem pode saber o quê.
⁶pontos cegos: são zonas onde perguntas são punidas, evitadas ou redirecionadas porque ameaçam a narrativa.
⁷na prática, isso exige ao menos: (1) definição do termo, (2) critério de verificação, (3) limites do termo (onde ele falha), e (4) o que mudaria a conclusão.
⁸quando a mente inconsciente está no controle, quaisquer ações ou intenções podem estar contaminadas e precisam ser averiguadas para se compreender a raiz da distorção, seja ela uma proteção da mente e das crenças do interlocutor, apenas uma crença equivocada oriunda de um sem número de possibilidades ou ainda outra causa.
⁹metacognição reversa: é o estado onde existe a 'visão de águia¹⁰', e o praticante se observa em terceira pessoa em tempo real.
¹⁰visão da águia: na filosofia oriental não é sobre enxergar longe no sentido físico, mas sobre uma percepção binocular da realidade: a capacidade de ver o todo (o macro) sem perder o detalhe (o micro).
